prefácio do presente | preface to the present
MIRA FORUM + Fundação Calouste Gulbenkian
Trabalho desenvolvido durante residência artística realizada entre março e junho de 2022 na cidade do Porto, em Portugal.
Artista selecionada em uma convocatória aberta do MIRA e Fundação Gulbenkian. 
MIRA FORUM + Fundação Calouste Gulbenkian
Work developed during an artist residency held between March and June 2022 in the city of Porto, Portugal.
Artist selected in an open call by MIRA and Gulbenkian Foundation.
prefácio do presente | preface to the present
“Ser imigrante é viver o tempo inteiro de saudades de metades que não se encaixam de faltas, ausências que não tem forma” (D.)

“Falta cor e não nos querem aqui colorir a cidade” (T.)

“Quantas memórias cabem num rio?” (I.)

“É possível criar imagens sutis de fatos brutos e violentos? (H.)
"To be an immigrant is to live all the time of longing for halves that don't fit together of lacks, absences that have no form" (D.)

"We lack color and we are not wanted here to color the city" (T.)

"How many memories fit in a river?" (I.)

"Is it possible to create subtle images of brutal and violent facts?" (H.)

texto de apresentação

A busca afogada da morada carrega um corpo monumento com traumas e memória. Reviver a saúde do corpo presente no ser carrega um estranhamento do encontro com o passado ancestral.

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Pensar questões dentro do que entendemos como saúde mental de forma consciente é algo que me atravessa há 10 anos, desde que fui convocada a olhar para minha mãe
com minha fotografia. Desde então, no meu trabalho, venho observando indivíduos e suas particularidades para falar sobre sensações que nomeamos como loucura. Quando me inscrevi para essa residência em Portugal, uma parceria da Galeria MIRA com a Fundação Gulbenkian, tive interesse em trabalhar junto do Hospital Conde de Ferreira, o primeiro hospital psiquiátrico do Porto. A pandemia chegou e junto dela a necessidade de mudar o foco da pesquisa; veio então a nova sugestão do pensar sobre imigração brasileira e relações com saúde mental.

Quando chego, em 26 de março, começo a experienciar a cidade e ouvir relatos diversos das vivências de imigrantes brasileiros por aqui, percebo como as vivências individuais reverberam no coletivo, além disso: como elas se conectam em forma e semelhança. Sinto a necessidade de dar um passo para trás para poder visualizar as raízes de onde os atravessamentos que hoje se expressam por meio de sintomas psicológicos se iniciam.
A relação entre Brasil e Portugal não é neutra. Existe uma história de invasões, roubo e criação de imaginários sociais-coletivos. O tempo não dá conta de apagar o passado. Pensar como vivem brasileires em Portugal hoje é ser atravessada, antes de tudo, por essa raiz. E começar olhando para ela é uma possibilidade honesta de reconhecer o caminho para quem sabe começar a entender o presente.

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Traçar um imaginário psicológico dessa imigração passa pelas feridas abertas; que se mostram tanto na individualidade como nos espaços públicos, nos monumentos cristalizados e nas sensações coletivas compartilhadas.

Como sente uma corpa colonizada quando se encontra com um monumento em homenagem ao esforço colonizador daqueles que invadiram suas terras?

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Falar sobre os indivíduos e suas experiências sem considerar o contexto a que estão inseridos é pular uma parte importante dessa história. O meu trabalho, se tratando de uma pesquisa artística viva, teve deslocamentos de forma de ver e produzir durante esse tempo em Portugal. Percebo que além das fotografias, também necessito das imagens criadas pela força das palavras organizadas em texto. Propor uma residência a quilômetros de distância, sem conhecer o território, é propor um ponto de partida a ser explorado a depender de como o espaço e as corpas interagem no presente.

Portanto,
prefácio do presente se torna um grito
um grito ao presente encontrado
um grito do meu corpo presente e aberto
num lugar desconhecido
para sentir o que a cidade me convoca a falar.

Se “muitas pessoas” nos últimos anos falam sobre monumentos e colonização, o que tem por trás disso? O que se faz com o que se escuta? Como a memória desse passado vem sendo elaborada? Como isso interfere na saúde de imigrantes brasileiros e de outras colônias aqui? Pra tentar começar a responder essas perguntas, eu precisaria de muito mais do que 3 meses. No momento, colaboro com a escavação já iniciada por outros artistas, para que a ferida se mantenha aberta e olhada desde sua raiz, por mais repetitivo que isso seja. “Falaremos até que não seja mais preciso falar”. Saúde mental é política. Saúde mental é coletiva e social.

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Agradeço as minhas guias espirituais pelos caminhos abertos nesta terra do norte, saúdo as minhas avós que me acompanharam nessa jornada. Vibro os encontros com Betina, Orlando, Taís, Djalma, Thiara, Luciana, Mel, que me permitiram que o nosso encontro pudesse ser cristalizado em imagens; agradeço a todes es brasileires que cruzei e que compartilharam suas sensações comigo, de todas as formas. Esse trabalho só foi possível com o acompanhamento artístico de Karlla Girotto e as trocas imensas com Ayala Prazeres, Laís Melo, Daniele Oliveira, Vinícius Mafra.
introductory text

The drowned search for the address carries a monumental body with traumas and memory. Reviving the health of the body present in the being carries the strangeness of an encounter with the ancestral past.

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Thinking about issues within what we understand as mental health in a conscious way is something that has been crossing my mind for 10 years, since I was summoned to look at my mother with my photography. Since then, in my work, I have been observing individuals and their particularities to talk about sensations that we name as madness. When I applied for this residency in Portugal, a partnership between Galeria MIRA and the Gulbenkian Foundation, I was interested in working at the Conde de Ferreira Hospital, the first psychiatric hospital in Porto. The pandemic arrived and with it the need to change the focus of the research; then came the new suggestion of thinking about Brazilian immigration and relations with mental health.

When I arrive, on March 26th, I start to experience the city and listen to diverse accounts of the experiences of Brazilian immigrants here, I realize how the individual experiences reverberate in the collective, moreover: how they connect in form and similarity. I feel the need to take a step back in order to visualize the roots from where the crossings that today are expressed through psychological symptoms begin.
The relationship between Brazil and Portugal is not neutral. There is a history of invasions, theft, and the creation of social-collective imaginaries. Time cannot erase the past. To think about how Brazilians live in Portugal today is to be crossed, first of all, by this root. And to start by looking at it is an honest possibility of recognizing the path to who knows how to start understanding the present.

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Tracing a psychological imaginary of this immigration goes through the open wounds; that show up both in the individuality and in the public spaces, in the crystallized monuments and in the shared collective sensations.

How does a colonized corps feel when it encounters a monument honoring the colonizing efforts of those who invaded its lands?

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To talk about individuals and their experiences without considering the context in which they are inserted is to skip an important part of this history. My work, being a living artistic research, had displacements in the way of seeing and producing during this time in Portugal. I realize that besides photographs, I also need images created by the force of words organized in text. To propose a residence miles away, without knowing the territory, is to propose a starting point to be explored depending on how the space and the bodies interact in the present.

Therefore,
preface of the present becomes a cry
a cry to the found present
a cry of my body present and open
in an unknown place
to feel what the city summons me to speak.

If "many people" in recent years talk about monuments and colonization, what is behind it? What is done with what is heard? How is the memory of this past being elaborated? How does this interfere with the health of Brazilian immigrants and of other colonies here? To try to start answering these questions, I would need much more than 3 months. For the moment, I collaborate with the excavation already started by other artists, so that the wound remains open and looked at from its root, as repetitive as that may be. "We will talk until it is no longer necessary to talk". Mental health is political. Mental health is collective and social.

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I thank my spiritual guides for the paths opened in this northern land, I salute my grandmothers who accompanied me on this journey. I vibrate the encounters with Betina, Orlando, Taís, Djalma, Thiara, Luciana, Mel, that allowed our meeting to be crystallized in images; I thank all the Brazilians that I crossed and that shared their sensations with me, in all ways. This work was only possible with the artistic accompaniment of Karlla Girotto and the immense exchanges with Ayala Prazeres, Lais Melo, Daniele Oliveira, Vinícius Mafra.



Isabella Lanave

Isabella Lanave, Brazilian, Latin American, Women Photographer, Visual artist, Photojournalist, Curitiba, Brazil.
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